Resolvi aproveitar enquanto não fico cheia de sono (já só deve faltar um quarto de hora) para adiantar trabalho (uma vez que amanhã não devo ter oportunidade) e dizer que é com pesar que constato que amanhã é a minha última Serenata.
E isto é uma surpresa porquê?
Ora principalmente porque eu sempre fui uma piegas. E com isto entenda-se que me refiro à minha afirmada intolerância para o aperto da saia, o aperto dos collants, o aperto da camisa, o aperto das pessoas na Sé Velha, ao frio que o Traje me dá em dias de Inverno e os nervos com que eu fico sempre que chove e eu estou de traje, porque depois é o cabelo que fica colado à cabeça e os pés que me doem de frio. E no Verão? Os nervos que me dá ter o traje vestido, porque os collants dão calor e os pés doem do calor e aperto dentro dos sapatos e a camisa cola-se a mim de uma forma irritante.
Sim, eu sou, na sua essência, uma chata e tenho fobia ao desconforto (mas gosto de ir acampar, acrescento em minha defesa).
Isto para dizer que, mesmo com tantos nervos para com o traje e a intolerância para com as moças que todos os anos choram um oceano sentadas nas escadas da Sé Velha (alturas em que eu sempre pensei "Ah, se eu chorar é de dor nos pés" - atentai na arrogância dos mais novos), ainda assim é com grande pesar que começo a derradeira despedida da Universidade.
Ora eu nasci e cresci nesta cidade. Muito pouco há que eu não saiba o que é e que se passa por aqui. Mas ainda assim estou envolvida numa onda crescente de nostalgia. O que significa que Coimbra não é mais leve para os nativos no que toca à Saudade.
Olhando para trás , parece que foi tudo noutra vida. O primeiro ano, que por si só é uma das duas partes da Licenciatura (sendo a outra o resto todo), as incursões ao Botânico a qualquer hora e com qualquer tempo (se fosse hoje não ia, porque a velhice trouxe consigo a paranóia e eu agora sou demasiado desconfiada para estar sem olhar sobre o ombro durante 10 minutos), as horas na esplanada do Sr. Lemos, as aulas a arrepiar de frio na Zoologia e, claro, as inúmeras horas de riso, das quais tenho umas saudades descomunais (e que agora só são repostas quando a Patitas, a Marta, faz alguma ou menciona a Ervilhinha ou acerta com pingos de Laranja no Jonathan Ham ou descalça o Michael Courtney), e os almoços absolutamente surreais.
E as infinitas infinitas infinitas infinitas horas em que tive de deixar tanta coisa de lado em prol do estudo.
Por estas, por outras, por todas os momentos e batalhas que foram travadas até aqui, sou incapaz de me desfazer do meu Traje, tão perfeito na maneira como me tira a paciência e me dá uma dor nos pés que sobe pelos calcanhares e me faz doer as pernas e as costas. Por isso, amanhã, com todo o orgulho que se deve ter nesta chegada à meta, volto a vestir o Traje para a última Serenata, com o peso das vivências sobre a capa e uma série de novas esperanças debaixo dela. Se eu desatar a chorar e não for dos pés, eu prometo dar o braço a torcer.
A partir de hoje, aquela conversa que muito me desagradava sobre abandonar o IBILI e ir para as Medicinas desaparece. A partir de hoje, vou contar os dias que faltam para voltar ao centro do sítio mais místico da cidade e contentar-me com a luz das novas gerações aos gritos do outro lado da janela. E comigo fica a Biologia, que me trouxe até aqui.
Porque em Coimbra, o encanto, e a própria hora da despedida, estão lá.
Para o Eça.
Para o Carlos da Maia.
Para o Trio.
E para mim.
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